João Habitualmente

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DOMINGO

estes vagos milhares de namorados
que marginam as bordas dos domingos

de mãos dadas e dissipam perfumes
densos nos contornos da baixa portuense

ou serão pipocas derramadas nos passeios?

lá vão elas a
profusão dos líquidos aromas chanel
eau violette xailes
roxos esburacados de rendas batons
vivos tanta
cor

tanta cor para destinos black & white

sabes como me fizeste noite?

e como me obrigas
a reaprender devagar o comprimento dos dias?

este grande deserto e os
rios apagados

acender a chama recomeçar a luz

tarefa meticulosa

Há pedras habitadas Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida

esperam então um ano a fio
pelo regresso dos companheiros

Paula Rego, “vanitas”, 2006

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vanitas-paula-rego

 

“No centro do seu tríptico, de braços cruzados, entre retrato em majestade e realístico auto-retrato, Paula Rego preside à cerimónia da vida entre sono onde a morte se esquece e vida que de olhos bem abertos parece disposta a “matar a morte”, como Shakespeare ousou escrever. Como se a antiga panóplia das vanitas cristãs já não tivesse o poder de nos reenviar ao nosso antigo nada. É nas nossas mãos que está a folclórica foice, sem a sombra temerosa de Goya, rodeada de todos os brinquedos do nosso divertimento, indiferente ao Tempo e à sua música mortal. Como se esta humana assumpção da Morte encarnasse agora a universal indiferença com que a vivemos e já não fosse a musa suprema instalada no nosso coração no lugar de Deus, lembrando-o. Não é uma vanitas, máscara de Deus ou da sua ausência, por isso sumptuosa. É a nossa, contemporânea-ascética, quase infantil. Talvez só agora a nossa verdadeira morte. Quer dizer, vida sem transcendência.”  Eduardo Lourenço

 

João Habitualmente

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Agradecemos

Agradecemos
em júbilo pela oportunidade que nos deram,
estamos reconhecidos aos donos da vida.
e em romaria lhes beijaremos os anéis
nos altares onde estiverem.
nós, os que adoramos viver,
sentimo-nos na obrigação de agradecer.

aos patrocinadores, colaboradores,
a todos quantos nos emprestaram o riso e o ranho,
aos que nos entusiasmaram encorajaram enrabaram e
aos que ainda estão para vir

agradecemos,
a colaboração
ao haxixe de marrocos
à febre de malta
ao vinho da casa
à heroína

que casa com o cowboy
lá para o fim do filme

agradecemos
ao fim do filme
por ter acabado
às sombras da tarde
por fazerem sombra à tarde
aos caminhos d’aldeia
por cheirarem a merda de vaca
ao senhor padre por ser virgem
nem ele sabe a importância que isso tem
nós também não

agradecemos
ao white horse
royal label
aos pudins flan
os maravilhosos momentos proporcionados

à nossa namorada
as incontáveis fodas
e as que demos sem contar

à mulher-a-dias
pela religiosidade com que nos lavou as cuecas
pela afeição com que nos viu crescer
pela idiotice de nunca querer ter sido mais nada

agradecemos
ao presidente da câmara
ter perdido as autárquicas
aos partidos no poder
e aos que ainda nos hão-de vir foder
às sogras tios e primos
a paciência de serem há tantos anos da família

agradecemos
ao sol da praia aos pardais ao ar lavado
e a todos os outros heróis mortos em combate
e imortalizados amortalhados em grandiosas estátuas
muros de betão

agradecemos
aos morcões e aos estúpidos
trissómicos e outros produtos das aberrações cromossómicas
a beleza com que são horríveis
é aí que vemos a infelicidade de que escapámos
é aí que temos a noção do tamanho bonito de existirmos assim

agradecemos
à dor aos sofrimentos inúmeros com que bordamos os nossos dias
porque nosso será o reino dos céus
aos ladrões e às putas
aos corcundas aos paralíticos
pela sensação de imprevisto quando caminhamos na rua
por exibirem conceitos tão próprios de vida

e juramos
passar a cumprimentar toda a gente
estar infinitamente gratos
infinitamente gatos
piolhos porcos morcegos
infinitamente coisos despidos ao frio
vestidos ao sol
saias casacos camisas gabardines de vénus
tanta roupa tanta sobre chãos
corpos galácticos

juramos
estar infinitamente gratos
a todos os casais felizes
uniões duradouras bodas de prata
por demonstrarem o conceito da felicidade emparedada
o valor da paciência
o infinito do esforço

agradecemos
à arte à ciência à história à sociologia
à política à religião
darem emprego a tanta gente

agradecemos
à tecnologia aos motores
pelo mesmo motivo
às fábricas aos computadores
idem
e a tudo quanto faça barulho cheire mal
foda a vegetação os rios os sóis a aragem
porque inevitavelmente somos a favor de uma poluição avançada,
não dessa como nos países de terceiro mundo que é feita
de gente magrinha
feia de ver.

Defendemos uma verdadeira poluição
pesada d’acordo com os padrões europeus

agradecemos
à tropa,
verdadeira escola d’homens
e à escola
tropa de meninos

agradecemos
a cristo marx reich
pela inutilidade prática das suas demonstrações
e agradecemos a todos quantos
fizerem demonstrações cheias de inutilidade prática
terem tido tanto êxito

não nos esqueceremos igualmente dos nossos teóricos
já lhes basta a infelicidade de serem teóricos
de se esquecerem de comer
tudo a bem dos teoremas teóricos
explanações metafísicas
conceitos epistemológicos

não podemos claro deixar de
sentir ternura pelos nosso teóricos

agradecemos
às entidades divinas
a força que nos dão
a garra o querer e o tesão

e agora não agradecemos a mais ninguém
porque vamos comer um bom bife
talvez devêssemos agradecer
à defunta vaca

porque sempre em tudo o que façamos
sem dúvida contraímos
obrigação de comer um bom bife
e foder uma garrafa de verde
o que é um acto poético
de incomensurável estética.

In Antologia poética – Carnaval poético

Adélia Prado

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ALFÂNDEGA

O que pude oferecer sem mácula foi
meu choro por beleza ou cansaço,
um dente exraizado,
o preconceito favorável a todas as formas
do barroco na música e o Rio de Janeiro
que visitei uma vez e me deixou suspensa.
“Não serve”, disseram. E exigiram
a língua estrangeira que não aprendi,
o registro do meu diploma extraviado
no Ministério da Educação, mais taxa sobre vaidade
nas formas aparente, inusitada e capciosa – no que
estavam certos – porém dá-se que inusitados e capciosos
foram seus modos de detectar vaidades.
Todas as vezes que eu pedia desculpas diziam:
“Faz-se educado e humilde, por presunção”,
e oneravam impostos, sendo que o navio partiu
enquanto nos confundíamos.
Quando agarrei meu dente e minha viagem ao Rio,
pronto a chorar de cansaço, consumaram:
“Fica o bem de raiz pra pagar a fiança”.
Deixei meu dente.
Agora só tenho três reféns sem mácula. (p. 30)

Com Licença Poética, (Org. Abel Barros Baptista), Cotovia, 2003

Abel Barros Baptista

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(…) o traço maior da poesia de Adélia [Prado] é a religiosidade, ou melhor, a fundação religiosa da sua poética. Trata-se afinal de uma concepção, trivial e devota, da poesia como inspiração. Trivial porque avessa à elaboração, no verso como na justificação poética, alimentando o espontaneísmo, o improviso, o descomprometimento formal: a dádiva não se confunde com talento ou capacidade oficinal. Devota porque efectivamente entendida enquanto prática de dedicação religiosa: a expressão transmite, ou pela expressão a poeta transmite, e a dádiva da voz consiste em não ter voz, antes dar voz à revelação divina. (p. XIII)

in “Qualquer coisa é a casa da poesia – nota sobre a poética de Adélia Prado”, Adélia Prado, COM LICENÇA POÉTICA, (Org. Abel Barros Baptista), Cotovia, 2003

 

 

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