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A FOLHA E A SOMBRA DELA

II

Folha e sombra não são, é evidente
feitas da mesma matéria. Mesmo assim
existe algo que as liga, uma espécie
de instável mas tenaz cordão umbilical.

Senão, vejamos.

Para maior facilidade, imaginemos
que está sol e faz vento,
e que nesse vento chega por fim a hora
de cair a folha de que vimos falando.

Observe-se: no momento em que a folha
se desprende e vem, revolvendo-se no ar
caprichosamente, em direcção ao solo

– a sombra faz exactamente a mesma coisa:
desprende-se também da sombra da árvore
e faz o seu caminho, repetindo-se ao rés-da-terra
os gestos e solavancos da folha no ar

– e converge para ela com sofreguidão,
como quem está há longo tempo
separado de si mesmo
e anseia por reunir-se.

E o encontro dá-se no preciso instante
em que a folha pousa no chão
e como que absorve a sua sombra,
reunindo-se as duas na completa
e decisiva identidade final
a que ambas aspiravam.

Ou talvez melhor: reavendo a folha
uma parte de si que andava ausente.

Parece isto uma coisa de Platão
não parece? ((p. 63, 64)

gaveta do fundo, Tinta da China, 2013

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