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(…) amava-o com essa austeridade dos sentidos com que algumas mulheres contemplam as suas próprias divagações. (p.10)

Ninguém punha em dúvida que ela tivesse tido grande beleza, do tipo ingénuo que atrai a atenção de grandes homens em que a vaidade é predominante (…) (pp. 12-13)

Mas creio que ele [Saint-Exupéry] estava apaixonado pela criança de seis anos que viu um dia pela mão da mãe e que se chamava Roger. Em geral, quando se fazem alusões a paixões dessas, carregam-nas com sentidos aberrantes e difamatórios. Mas pode ser o melhor do sentimento humano, uma revelação quase dolorosa do Paraíso. (p. 15)

Um menino [Roger] duma beleza tão radiosa que faz o efeito duma punhalada em pleno coração. (p. 15)

Nunca o [a Saint-Exupéry] achei grande escritor, mas tinha o sentido do enigma, que faz as pessoas propensas à fatalidade. (p. 15)

O [problema] de se estar para além da imaginação. É quando vemos exactamente, quando vemos, que existe para o homem um limite ao qual conduzem todos os seus conhecimentos. Um limite assustador.
Saint-Exupéry tinha passado esse limite, creio que sim. Tinha passado para lá da imaginação e Roger deu-lhe a mão para o levar para lá. (p. 17)

(…) era [Saint-Exupéry] incapaz de solicitude. Mas sabia carregar um homem de laços ternos, de música, de amor e de flores! “Mas na hora de cada separação, esses laços, sem que ele parecesse sofrer, caíam.” Seria que ela fora a exasperada amante dum homem a quem as satisfações humanas não diziam nada? Só assim ela pudera ficar tão distante do tempo partilhado e que se quer gozar, poupar e receber como um salário. (pp. 25-26)

Dominga, Guimarães Editores, 1999

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