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Retrato pobre

A tentação da mediocridade: em vez de a ignorarem e se buscarem maiores, alcançam-se na denúncia. São os pequenos grandes que se esgotam na grandeza que poderiam, mas nunca são. Cães empenhados que cientes dos dentes afiados se concentram nos tornozelos próximos. Mais grave é a cedência à mediocridade tornar-se grandeza e os pequenos grandes medida do conseguimento. Retrato pobre deste Portugal onde empobreço português. Pouco de grande se ousa, pouco de só se empreende. É-se grande na crítica do pequeno, não na perseguição do mais alto.

Resisto e escrevo estas palavras. Escrevo-as e consumo-me nelas. Entre o combate que em espelho reitera o inimigo e o alheamento que só pode suceder falhado, que caminho resta? Como escapar a esta doença social? Como refutar este argumento viciado? Estrangeiro em Portugal, português em todos os destinos, sem pátria nem exílio e a vida amarrada por país. Gostes ou não, é a cara com que ficas no retrato.

in Cão Celeste, nº 5, Maio de 2014

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