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É aqui que entra aquele gesto bonito da rainha, da Dona Amélia.
Entra aqui, de resto, como podia entrar em muitos outros lugares possíveis. O povo é sentimentalão, convém sempre ter presente.
O rei regressava, pois, com a família de Vila Viçosa, terra de brandíssimos costumes, e acabara de chegar a Lisboa, ao Terreiro do Paço, onde vai ter lugar a acção. Na esquina com a rua do Arsenal os competentes regicidas aproximam-se da carruagem descoberta onde segue a família real e conseguem visar de perto o rei e o filho mais velho, matando ambos e ferindo ainda, mas sem gravidade, o outro filho, Dom Manuel. A rainha tentou, em vão, desviar as armas dos matadores com o ramo de flores que antes lhe tinha sido ofertado.
Foi sem dúvida um gesto bonito, que as litografias da época largamente registaram e que a memória colectiva, juntamente com a das muitas tias-avós, foi preservando enquanto pôde.

(…)

[E agora uma história da carochinha, para inserir na grande História]

Até que há pouco tempo, uns mesitos apenas, creio que já no ano de 2013, foi publicada uma biografia da rainha Dona Amélia. Aí se regista o seguinte episódio:

A rainha, em altura que já não sei precisar, esteve gravemente doente, às portas da morte. Durante vários dias e em estado de completa inconsciência. O seu médico particular, inexcedível criatura, não a abandonou nunca, fosse de dia ou de noite.
E uma manhã, de súbito melhor, a rainha abre os olhos, fixa-os no médico e pergunta-lhe com ar espantado e severo:
– Porque está ao pé de mim com a barba por fazer?
O povo, que é aquele leitor omnívoro que a gente sabe, tomou conhecimento do episódio e, como era de esperar, não reagiu bem. Como que aproveitou para saldar um resto de antigas contas com a velha monarquia por inteiro e, de caminho, com a rainha do gesto das flores.
Desabafando alto e em uníssono:
– Olha a grande puta!
Posto o que, foi o povo para casa, como sempre ordeiro e sereno: nos passeios e caminhadas como nas debandadas.
Foi, entrou em casa, despiu-se, vestiu o pijama, deitou-se a dormir para o tal lado. Foi um sono reparador. Não voltou a pensar mais no assunto.

(…)

 in Cão Celeste, nº 5, Maio de 2014

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