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POUCO DEPOIS DE SANTANA

Não sei se serão exactamente choupos, embora os seus braços de agulha também lembrem vitrais. Mas tenho a certeza de que é este o bosque mais tarkovskiano que existe junto à lezíria, visível da linha do comboio. As águas por vezes inundam-no, numa espécie de carícia; depois, lentamente, afastam-se. As árvores, em toda a sua sabedoria, limitam-se a permanecer. Fingem, como nós, a eternidade. Mesmo que não sejam choupos.

Li, algures num jornal de há muitos anos ou numa folha da cinemateca, que Andrey Tarkovsky teria realizado Offret (O Sacrifícioi quando «já sabia que ia morrer». A frase parece-me imprópria, pois Tarkovsky faz parte desse reduzido número de indivíduos que soube sempre que iria morrer. Basta ver com atenção os seus filmes, fotografias, entrevistas. Isso não o impediu de rezar com imagens, que provam até que ponto a beleza é devastadora: não tem regresso. E pode magoar imenso.

Um dia chegaremos lá de bicicleta, ao pequeno bosque, nem que seja para termos a certeza de que as paisagens, ao tocarmos-lhes, perdem quase todo o seu encanto. Nem que seja a última coisa que fazemos juntos.

Ubi Sunt, Averno, 2014

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