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A Promessa de Antígona

(…) Agora é necessário compreender. Exigência que não parte de nenhuma mania de intelectual. A nossa sensibilidade perturbada até às entranhas, até às raízes do entendimento, obriga-nos ao esforço de descobrir o sentido da tragédia. O poeta exige de nós uma questão levantada por Antígona e Creonte.
Porque Antígona põe um problema de valores, enorme é a tentação do crítico em reduzi-la a simples peça de tese e em não ver nos personagens senão sinais algébricos dos valores que representam. Nada mais fácil no nosso juízo acerca de Antígona do que tê-la por um conflito de princípios. Nada, aliás, mais contrário ao percurso criativo do poeta do que a ideia de que a criação possa partir do abstracto para o concreto. Antígona não é uma batalha de princípios, mas um conflito de seres, e seres humanos fortemente diferenciados e caracterizados, um conflito de indivíduos. Os personagens do drama apresentam-se diante de nós como sólidos. É mesmo esta solidez (no sentido geométrico), esta densidade da sua sua substância que nos permite – mas só depois – projectá-los no plano das ideias. (pp. 27-28)

in A Promessa De Antígona – dez anos, Antígona, 1989

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