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“(…) As pessoas abrem lojas para.venderem coisas, esperam andar ocupadas e ter de ampliar a loja, depois venderem mais coisas e ficarem ricas, e eventualmente não terem sequer de ir à loja. Não é verdade? Mas não haverá também pessoas que abrem uma loja com a esperança de se abrigarem nela, entre as coisas que mais apreciam – os fios, as chávenas de chá ou livros – e apenas com a ideia de se afirmarem confortavelmente? Tornar-se-ão parte do quarteirão, parte da rua, parte do mapa da cidade, e eventualmente das memórias de todos. Sentar-se-ão a beber café a meio da manhã, irão buscar as decorações tradicionais no Natal, lavarão as janelas na primavera antes de exporem a sua nova mercadoria. As lojas, para estas pessoas, são o que uma cabana no bosque representa para outras: um refúgio e uma justificação.” (pp. 103-104)

Depois do pepino, comemos frango assado com passas e especiarias, massa lêveda, e arroz. Eu e Charlotte tivemos direito a talheres, mas Gjurdhi usava o pão como colher para comer o arroz. Lembrar-me-ia muitas vezes desta refeição ao longo dos anos, quando este tipo de comida, esta maneira informal de se sentar e comer, e até uma certa versão do estilo e da desarrumação da sala se tornariam uma moda corrente. As pessoas que eu conhecia, incluindo eu, iriam desistir, por algum tempo, de mesas de sala de jantar, copos de vinho a condizer, e até certo ponto de talheres ou cadeiras. Quando estava a ser recebida ou a tentar receber pessoas assim, lembrava-me sempre de Charlotte e Gjurdhi no limiar da verdadeira pobreza, da autenticidade arriscada que os diferenciava de todas essas imitações posteriores. (p. 114)

(…) mas sentia que podia perfeitamente caminhar noutra direção, noutra direção qualquer. A minha ligação estava em perigo, era só isso. Às vezes a nossa ligação fica frágil, está em perigo, era só isso, parece quase perdida. As paisagens e as ruas recusam-se a reconhecer-nos, o ar torna-se rarefeito. Nessas alturas, não seria preferível termos um destino ao qual nos submetermos, algo que nos chamasse, qualquer coisa, em vez destas escolhas tão vagas, destes dias tão arbitrários? (p. 120)

Centenas, talvez milhares, de borboletas estavam pousadas nas árvores, a repousar antes do seu longo voo sobre os lagos Huron e Erie, e depois para sul em direção ao México. Estavam pousadas como folhas de metal, ouro martelado; como se fossem flocos de ouro que tivessem ficado presos nos ramos. (p. 176)

Falsos Segredos, Relógio D’Água, 2014

 

 

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