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Occupy Wall Street, ou O Silêncio Violento de Um Novo Começo

Os manifestantes de Wall Street são constantemente bombardeados pela eterna questão: «O que é que eles querem?» Recordemos que esta é a pergunta arquetípica do mestre à mulher histérica: «Tanta queixa e lamúria – sabe realmente o que quer?» No sentido psicanalítico, os protestos são de facto atos histéricos, que provocam o mestre, minam a sua autoridade, e a pergunta «Mas o que quer?» visa exatamente impedir a verdadeira resposta. O seu propósito é: «Responda nos meus termos ou cale-se!» Assim, bloqueamos efetivamente o processo de transformação de um protesto incipiente num projeto concreto. (p. 120)

Claude Lévi-Strauss escreveu que a proibição do incesto não é uma questão, um enigma, mas uma resposta a uma questão que não conhecemos. Deveríamos tratar as exigências dos protestos de Wall Sreet  de maneira semelhante: os intelectuais não devem tomá-las sobretudo como exigências, como questões para as quais devem produzir respostas claras ou programas sobre o que fazer. Elas são respostas. trata-se de uma situação como a da psicanálise, em que o paciente sabe a resposta (os meus sintomas são as respostas), mas não sabe a que ela responde, e o analista tem de formular a questão. É somente através desse trabalho paciente que um programa surgirá.
Conta uma velha piada da antiga República Democrática Alemã que um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que toda a sua correspondência será lida pelos censores, ele diz aos amigos: «Vamos combinar um código: se receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa.» Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita a azul: «Tudo é uma maravilha por aqui: as lojas estão abastecidas, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.» Esta situação não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos, a única coisa que nos falta é a «tinta vermelha»: «sentimo-nos livres» porque nos falta a linguagem para articular a nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – «guerra ao terrorismo», «democracia e liberdade», «direitos humanos», etc., etc. – são termos falsos, que mistificam a nossa percepção da situação, em vez de permitirem que pensemos nela. A tarefa, hoje, é dar tinta vermelha aos manifestantes. (p. 129)

O Ano Em Que Sonhámos Perigosamente, Relógio D’Água, 2013

 

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