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VIRGÍLIO: Aposto que se eu fizesse muito barulho, poderias ouvir melhor o silêncio.
BEATRIZ: Achas que sim?
VIRGÍLIO: Podemos tentar. (Virgílio levanta-se. Respira fundo. Diz o seguinte, berrando a plenos pulmões.) TODOS A BORDO, TODOS A BORDO! DEPRESSA, DEPRESSA, DEPRESSA! POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA, NÃO PERCA O COMBOIO! POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA, NÃO SE ESQUEÇA DAS SUAS BEBIDAS E DA SUA MERENDA! NÃO FIQUE COM FOME! NÃO PERCA A SUA BAGAGEM DE VISTA! POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA!VOCÊ AÍ, AONDE VAI? ENTRE NA SUA CARRUAGEM. TODOS A BORDO, TODOS A BORDO, JÁ DISSE! ÚLTIMA CHAMADA! POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA, O COMBOIO VAI PARTIR, POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA! UMA VIAGEM INESQUECÍVEL! POUCA-TERRA-POUCA-TERRA-POUCA-TERRA! PREPARAR PARA PARTIR, PREPARAR PARA PARTIR. (para a Beatriz) Bem, o silêncio, ouviste-o?
BEATRIZ: Ouvi.
VIRGíLIO: E?
BEATRIZ: Era como milhares de sombras a acotevelar-se à minha volta.
VIRGÍLIO: Que diziam elas?
BEATRIZ: Lamentavam o fim das suas vidas incompletas
VIRGíLIO: Que palavras utilizavam?
BEATRIZ: Nenhuma que eu conseguisse ouvir.
VIRGíLIO: Em que eram essas palavras diferentes do silêncio normal?
BEATRIZ: É difícil pôr em palavras.
VIRGÍLIO: Que podemos dizer acerca do que elas disseram?
BEATRIZ: Tenho a língua presa.
VIRGÍLIO: Se eu as lesse, o que leria?
BEATRIZ: A minha caneta não tem tinta.
VIRGÍLIO: Assim não está a resultar. Precisamos de uma abordagem diferente.
(Silêncio) (pp. 111-112)

Beatriz e Virgílio, Presença, 2010

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