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O princípio de rendimento, que hoje domina todos os planos de existência, apodera-se também do amor e da sexualidade. No top de vendas As Cinquenta Sombras de Grey, a protagonista do romance surpreende-se pelo facto de o seu parceiro imaginar a relação como uma “oferta de emprego, com os seus horários, a descrição do trabalho e um protocolo de resolução de conflitos muito rigorosos”. O princípio de rendimento não se coaduna com a negatividade do excesso e da transgressão. Por isso, entre os “acordos” a que o sujeito (a “Submissa”) se obriga contam-se os seguintes: muito desporto, alimentação saudável e horas de sono suficientes. Entre as refeições. é proibido comer outra coisa que não fruta. A “Submissa” deverá evitar também o consumo excessivo de álcool, e não pode fumar nem tomar drogas. A própria sexualidade deverá submeter-se ao imperativo da saúde. É proibida toda a forma de negatividade. O uso de excrementos consta igualmente da lista das acções proibidas. É eliminada, do mesmo modo, a negatividade da sujidade, simbólica ou real. Assim, a protagonista obriga-se a estar “depilada e lavada a qualquer momento”. As práticas S&M (sadomasoquistas) que o romance descreve não são mais do que outras tantas variedades de sexualidade. Falta-lhes toda a negatividade da transgressão ou da infracção, que caracterizava ainda a erótica da transgressão de Bataille. Assim, os “limites rígidos” acordados de antemão não podem ser transpostos. E, por outro lado, as chamadas safewords garantirão que os limites em causa não assumam formas excessivas. (p. 22)

Byung-Chul Han, Relógio D’Água, 2014

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