Etiquetas

Aprende-se muito pouco aqui, há falta de professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, nunca seremos ninguém, por outras palavras, nas nossas vidas futuras seremos apenas coisas muito pequenas e subalternas. A nossa instrução visa sobretudo incutir-nos paciência e obediência, duas qualidades que pouco ou nenhum proveito prometem. (p. 9)

Perguntei há pouco tempo a Kraus se ele de vez em quando não se aborrece. ele lançou-me um olhar de condenação e reprimenda, pensou um pouco e disse: «Aborrecer-me? Não és lá muito inteligente, Jakob. E deixa-me que te diga que fazes perguntas tão ingénuas como pecaminosas. Quem é que se aborrece neste mundo? Talvez tu. Eu não, digo-te já. Estou aqui a aprender de cor passagens do livro. E agora? Tenho tempo para aborrecer-me? Que perguntas tão idiotas. Os aristocratas talvez se aborreçam, não Kraus, e tu também te aborreces, porque, se não te aborrecesses, não te teria ocorrido essa ideia e não terias vindo fazer-me esta pergunta. Podemos ocupar-nos sempre com alguma coisa, se não por fora, então por dentro, podemos murmurar. É claro que fazes troça de mim por eu murmurar, mas ouve bem e diz-me lá se sabes o que é que eu murmuro? Palavras, querido Jakob. Murmuro e repito palavras constantemente. (p. 85)

Jakob Von Gunten – Um Diário, Relógio D’Água, 2005

 

Anúncios