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Jessica Harrison

 

Em diametral oposição a Dostoievski, que confessou que permaneceria com Cristo mesmo que « alguém provasse que Cristo está fora da verdade», Tolstoi declarou: «Amo a verdade mais do que qualquer outra coisa no mundo.» A sua veracidade inexorável obrigou-o a reconhecer que não existe prova definitiva da imortalidade da alma nem da sobrevivência de qualquer forma de consciência. Quando Anna Karénina morre debaixo das rodas que a acometem, o ser dela passa irremediavelmente para as mãos das trevas. Como Lévin – que tão frequentemente ergue um espelho para o romancista – , Tolstoi era assediado pelo absurdo aparente da existência humana até à beira da autodestruição. No seu diário, ele considerou a possibilidade de suicídio:

” Umas poucas pessoas excepcionalmente fortes e coerentes agem assim. Tendo compreendido a estupidez da piada que lhes foi feita, e tendo compreendido que é melhor estar morto do que estar vivo, e que o melhor de tudo é não existir, agem em conformidade e prontamente acabam com esta piada estúpida, uma vez que há meios para o fazer; uma corda em volta do pescoço, água, uma faca para cravar no coração(…)” (pp. 240-241)

George Steiner, Tolstoi ou Dostoievski, Relógio D’Água, 2015

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