Etiquetas

Se nunca pude ser mau, também nunca consegui ser nada: nem patife, nem honesto, nem herói, nem insecto. Agora, acabo os dias no meu canto, azedando-me com esta maligna e vã consolação de que um homem inteligente não pode seriamente tornar-se qualquer coisa, e que isso só os imbecis o conseguem. Sim, o homem do século XIX tem o dever (e acha-se moralmente obrigado) de ser um indivíduo desprovido de carácter. Ao contrário, o que o tem, o homem de acção, é uma criatura essencialmente limitada. Completei agora quarenta anos; ora quarenta anos é uma vida inteira, é a velhice extrema. Viver mais de quarenta anos é inconveniente , vulgar, imoral!Quem vive mais de quarenta anos? Respondam sinceramente, de boa fé. Já lhes digo: os imbecis e os patifes. Di-lo-ei na cara de todos os velhos, de todos os velhos respeitáveis de cabelos prateados e perfume suave! Di-lo-ei ao mundo inteiro! Tenho o direito de falar assim porque hei-de viver até aos sessenta anos. Até aos setenta! Até aos oitenta!…Esperem! Deixem-me tomar fôlego. (p. 7)

Vou agora contar-lhes, meus senhores, quer queiram ou não ouvir-me, por que nem sequer consegui ser um insecto.  Declaro solenemente que várias vezes o tentei, mas em vão. O excesso de consciência é uma verdadeira doença. Para as necessidades do homem, seria mais do que suficiente uma consciência vulgar, isto é, a metade ou a quarta parte daquela que cabe ao indivíduo culto do nosso malfadado século XIX, indivíduo que tem ainda por cima a pouca sorte de habitar em S. Petersburgo, a cidade mais abstracta e mais convencional do nosso planeta. (Há cidades convencionais e outras não) Assim, por exemplo, bastaria possuir esse quinhão de consciência de que vivem os homens de acção a quem chamamos espíritos íntegros. Aposto que julgam ser isto uma farroncada, que pretendo ser espirituoso à custa dos homens de acção e que procedo como o tal oficial que fazia tinir o sabre. Mas quem, meus senhores, pode gabar-se das suas doenças e servir-se delas como pretexto para jactâncias? [sublinhado nosso]
Que digo? Todos o fazem. Vangloriando-se das suas enfermidades, e eu mais do que ninguém. Não discutamos; é absurda a minha objecção. No entanto, estou persuadido de que não só um suplemento de consciência como toda a consciência representa uma doença. (p. 8)

O Jogador E Outras Obras, Estúdios Cor, 1965

Anúncios