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– Tu não compreendes – disse [Maceiro Moché] com desespero. – Não podes compreender. Fui salvo por milagre. Consegui regressar. De onde é que eu retirei esta força? Quis regressar a Sighet para vos contar a minha morte. Para que vocês se pudessem preparar enquanto há tempo. Viver? Já não tenho apego à vida. Estou só. Mas quis regressar e avisar-vos. E eis que ninguém me escuta…
(…) As árvores estavam em flor. Era um ano igual a tantos outros, com a sua Primavera, os seus esponsais, os seus casamentos e nascimentos.
As pessoas diziam:
– O Exército Vermelho avança a passos largos… Hitler não será capaz de nos fazer mal, mesmo que queira…
Sim, nós duvidávamos inclusive da vontade de Hitler de nos exterminar.
Iria ele aniquilar todo um povo? Exterminar uma população dispersa por tantos países? tantos milhões de pessoas! Com que meios? E em pleno século XX!
As pessoas interessavam-se por tudo – pela estratégia, pela diplomacia, pelo Sionismo -, mas não pelo seu próprio destino.
Até Maceiro Moché se tinha calado calado. Estava cansado de falar. Vagueava pela sinagoga ou pelas ruas, de olhos baixos, costas arqueadas, evitando o olhar das pessoas.
Naquela época, ainda era possível comprar certificados de emigração para a Palestina. Tinha pedido ao meu pai que vendesse tudo, que liquidasse o negócio e que partíssemos.
-Sou demasiado velho, meu filho – respondeu ele, – Demasiado velho para começar uma vida nova. Demasiado velho para recomeçar do zero num país longínquo… (pp. 13-15)

Noite, Texto Editora, 2003

«How a fear of loss can cause us to lose everything»

When the first plane hit the north tower of the World Trade Center, Marissa Panigrosso was on the ninety-eight floor of the south tower, talking to two of her co-workers. She felt the explosion as much as heard it. A blast of hot air hit her face, as if an oven door had just been opened. A wave of anxiety swept through the office. Marissa Panigrosso didn´t pause to turn off her computer, or even to pick up her purse. She walked to the nearest emergency exit and left the building.

The two women she was talking to – including the colleague who shared her cubicle – did not leave. ‘I remember leaving and she just didn’t follow’, Marissasaid later in an interview on American National Public Radio. ‘I saw her on phone. And the other woman – it was the same thing. She was diagonally across from me and she was talking on the phone and she didn´t want to leave.’

In fact, many people in Marissa Panigrosso’s office ignored the fire alarm, and also what they saw happening 131 feet away in the north tower. Some of them went into a meeting. A friend of Marissa’s, a woman named Tamitha Freeman, turned back after walking down several flights of stairs. ‘Tamitha says, “I have to go back for my baby pictures”, and then she never made it out.’ The two women who stayed behind on the telephones, and the people who went into the meeting, also lost their lives. (pp. 121-122)

THE EXAMINED LIFE – How We Lose and Find Ourselves, Vintage Books, 2014

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