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tarahumaraAo norte do México, a quarenta e oito horas da cidade do México, há uma raça pura de índios vermelhos: os Tarahumaras. Vivem lá quarenta mil homens, num verdadeiro estado de antes do dilúvio. São desafio a este mundo onde tanto se fala de progresso por desesperarmos, sem dúvida, de progredir.
Esta raça, que deveria ser fisicamente degenerada, há quatrocentos anos resiste a tudo o que aparece a atacá-la: civilização, mestiçagem, guerra, Inverno, animais,tempestades e floresta. Vive nua de Inverno, nas suas montanhas obstruídas de neve, sem querer saber de nenhuma teoria médica. Existe nela um comunismo sob a forma de sentimento de solidariedade espontânea.
Por incrível que pareça, os Índios Trarahumaras vivem como se estivessem já mortos… Não vêem a realidade e extraem forças mágicas do desprezo que sentem pela civilização.
Às vezes aparecem nas cidades, empurrados sei lá por que vontade de andar, ao que dizem ver os homens que se enganaram afinal como são. Para eles, viver nas cidades é ter-se enganado.
Vêm com mulher e filhos através de impossíveis trajectos que nenhum animal se atreveria a experimentar.
Ao vê-los por ali fora no caminho, a passar torrentes, terra a desmoronar-se, matagais cerrados, escadarias de rocha, paredes a pique, não posso deixar de pensar que souberam conservar a força da gravidade natural dos primeiros homens.tarahumaras
À primeira vista, a terra tarahumara é inabordável. Apenas carreiros vagos que parecem sumir-se no chão de vinte em vinte metros. Noite chegada, se não formos homem vermelho, temos de parar. Pois só o homem vermelho vê nessa altura onde pode pôr os pés.
Quando os Trarahumaras descem à cidade, mendigam. De um modo surpreendente. Param à frente das portas e põem-se de perfil com um ar de desprezo soberano. Parece que dizem : «Como és rico és cão, valho mais do que tu, cuspo em cima de ti.»
E quer se lhes dê ou não dê
, ao fim do mesmo lapso de tempo vão-se embora. Quando se lhes dá não agradecem. Porque dar àquele que não tem nada nem sequer é para eles dever, mas lei da reciprocidade física que o Mundo Branco traiu. A sua atitude parece dizer: « Obedecendo à lei, a ti próprio é que fazes o bem, não tenho nada que te agradecer.» (pp. 83-84)

Antonin Artaud, Os Tarahumaras, Relógio D’Água, 2000

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