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Num outro lugar e num outro tempo talvez tudo isto tivesse sido engraçado, instrutivo, simpático, refinado, divertido e até mesmo encantador. Joseph lembrava-se de certas alturas na sua vida em que a compra de uma nova gravata ou de um chapéu de coco muito rígido o podia deixar em grande excitação mental. Meio ano atrás tivera uma dessas histórias de chapéus. Era um chapéu normal, de meia altura, muito bom, como costumavam usar os cavalheiros mais «distintos». Mas ele não confiava no chapéu. Pôs o chapéu mil vezes na cabeça em frente ao espelho, para depois o voltar a pousar em cima da mesa. Afastava-se três passos do monstro engraçado e observava-o  como uma sentinela segue os movimentos do inimigo. Não se lhe podia fazer qualquer objecção. Pendurou-o no cabide, e também aí parecia bastante inocente. Tentou de novo pô-lo na cabeça, terrível! Parecia que o queria partir em dois de alto a baixo. Tinha a impressão de que a sua personalidade se enevoava, que ficava salgada, que se dividia em duas partes. Saiu para a rua: avançava trôpego como um bêbedo desprezível, sentia-se perdido. Entrou num restaurante, tirou o chapéu: salvo! E foi assim a história do chapéu. também tinha histórias de colarinhos, histórias de casacos e histórias de sapatos. (p. 111)

O Ajudante, Relógio D’Água, 2006

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