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Pessimismo ou Realismo?

Quanto ao ‘pessimismo’ do Qohélet, uma outra questão constantemente suscitada, afirma-o, por exemplo, a Enciclopédia Garzanti di Filosofia. No verbete respectivo. lê-se que falta ao Eclesiastes uma “rigorosa organicidade”; que ele deve ser visto antes como uma “coleção de apontamentos”, na qual “confluem, junto a máximas inspiradas na sapiência tradicional, outras caracterizadas por um negro pessimismo e quase por uma visão materialista, em tensão, se não em contradição, com as primeiras”, o que teria tornado difícil a acolhida do livro no cânon bíblico. A leitura em clave pessimista é recusada por Henri Meschonnic, a partir da perspectiva de um judaísmo laico, cioso de sua diferença, não resolúvel em ecumenismo: “Este livro é construído por suas obsessões. Exemplos, provérbios, tudo é ritmado pelo movimento de ressaca, pela repetição dos termos, cuja visada não é o pessimismo, mas a lucidez, não o abstrato, mas o concreto.” Também N. Frye tem do Sábio uma compreensão diferente, no seu caso passada por um crivo que lembra a “ética do trabalho” protestante (tanto assim que Frye destaca, na pregação qohelética, a insistência no “fazer”, cf. IX, 10): “Ele não é um pessimista fatigado e desgostoso da vida, mas um realista vigoroso, bem determinado a abrir o seu caminho arrombando todas as portas aferrolhadas da repressão em seu espírito”. Ou ainda: “Qohélet transforma o conservantismo da sabedoria popular num programa ininterrupto de energia mental. Aqueles que, sem se dar conta, têm identificado uma atitude religiosa seja com a ilusão, seja com a indolência de espírito, não são guias seguros para este livro, embora representem uma longa tradição”. (pp. 22-23)

QOHÉLET/O-QUE-SABE – ECLESIASTES, POEMA SAPIENCIAL, Perspectiva, 2004

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