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O ANJO DO JULGAMENTO FINAL NA COBERTURA DA CATEDRAL DE NOTRE-DAME DE PARIS

«O Anjo N.-D. incha as bochechas ao máximo.»

(Blaise Cendrars)

Quantas vezes já acabou o mundo
E quantas já
Trouxe este anjo à sua trombeta o sinal
Da violência? De noite a luz

Confunde os que seguem sem saber
Mais do que do riso e da sensação
De liberdade. De noite há gente
A partilhar a voz e o olhar

Com outra gente. E há um anjo
De cabeça um pouco baixa, pronto
Para o sopro que inunde a cidade.
É de pedra e existe, fotografias

O trazem aos dispositivos onde
Qualquer um o pode ver. Existe
E, com ele, um sopro anunciando.
Anjo de pedra a filmar a cidade

No sonho de um homem que perdeu
A mão direita. De noite não há sol
E só poucos olham em volta
Ou escutam melodias solenes.

O anjo está, permanece, imagem
Branca, carcomida pelo tempo.
Ali, como em outro lugar do mundo,
É apenas coisa em pedra, esculpida

Por mãos já sem nome, por operário
Errante à procura
De olhos aos quais mostrar beleza
Para que o mundo não acabe. Quantas

Vezes soprou o vento com mais força
E desgastou estas asas? Um anjo
Feito do silêncio da pedra, feito
De formas evocando o corpo

De um jovem vestido de túnica e descalço,
Setecentos e tal anos depois
Trazido ao brilho electrónico para
Atenuar o terror da morte

Colectiva, da guerra ignorada. Anjo
Reconhecido pelo enquadramento
Do céu branco, manhã
Onde poeira e incerteza se dissipam.

Rui Almeida
(inédito)

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