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ALFÂNDEGA

O que pude oferecer sem mácula foi
meu choro por beleza ou cansaço,
um dente exraizado,
o preconceito favorável a todas as formas
do barroco na música e o Rio de Janeiro
que visitei uma vez e me deixou suspensa.
“Não serve”, disseram. E exigiram
a língua estrangeira que não aprendi,
o registro do meu diploma extraviado
no Ministério da Educação, mais taxa sobre vaidade
nas formas aparente, inusitada e capciosa – no que
estavam certos – porém dá-se que inusitados e capciosos
foram seus modos de detectar vaidades.
Todas as vezes que eu pedia desculpas diziam:
“Faz-se educado e humilde, por presunção”,
e oneravam impostos, sendo que o navio partiu
enquanto nos confundíamos.
Quando agarrei meu dente e minha viagem ao Rio,
pronto a chorar de cansaço, consumaram:
“Fica o bem de raiz pra pagar a fiança”.
Deixei meu dente.
Agora só tenho três reféns sem mácula. (p. 30)

Com Licença Poética, (Org. Abel Barros Baptista), Cotovia, 2003

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